Folhetim - Textos e causos

Non Ducor, Duco

(não sou conduzido, conduzo - escrito na bandeira Paulista)


14/01/2006

Há coisas que só acontecem por que num minuto de desvario a palavra VAMOS, é contagiosa e contamina a todos. O ano retrasado eu também planejara passar pedalando e acabou dando tudo errado... nem lembro a razão, porém, para frustração geral, "melou"...

Este ano, tudo acertado, Rudolf como guia, íamos para Paranapiacaba e ponto. Então o Rudolf não pode ir, Iara que junto comigo havia planejado, caiu da escada e, segundo a médica, teria que ficar 21 dias com o pé imobilizado e ai até eu comecei a achar que era para desistir.

Chi, pensei, furou de novo! Daí chegou um e-mail dizendo eu topo, 2..3...4... 6.. e eu disse, por quê não? Todavia chegou um fundamental, que era o da MIKI, que eu não via desde fevereiro.

Foi a gota d'água. O Vlad, ligando, todo eufórico e perguntando horário de saída, o que levar o que não levar, Luíz Romera dizendo "tô dentro" Ah! então vamos lá, né? O Toyota era para ter ido no passeio de Taubaté e acabou dando errado. Não, dessa vez tinha que dar certo!

Bem, o que a gente tinha combinado era fazer sanduiche de perú e tomar com gatorade em um lugar em que fosse possível ver os fogos de artifícios lançados em Santos, onde há muito tempo atrás, o Leori tinha me apresentando o lugar: o Mirante. Hoje, foi descoberto e levantada uma plataforma em madeira para até 8 pessoas, cujo os degraus nos levam a uma altura digna do nome de paranapiacaba: Lugar de onde se vê o mar.

Bem, às 13 horas, os bikers chegaram`a minha casa, pois éramos somente seis e às 14 hrs estávamos saindo, com todas as bikes e todo o nervoso e ansiedade dignos de um caminho tal qual faziam os bandeirantes... desconhecido!


O Rodolfo me passara o telefone de um restaurante, e este me passou o endereço de uma pousada. Tudo reservado mas sem saber o quê, fomos para lá.

Quando chegamos, nos deparamos com um leve fog descendo vagarosamente as verdes montanhas que formam um paredão que protege a cidade e entramos na casa de mais de 100 anos, cuja história transpirava pelas paredes.

O Pé direito altíssimo, as largas tábuas no chão, o barulho de nossas vozes concorrendo com os dos nossos pés, carregando tudo para dentro de um quarto médio, com 6 camas e duas janela sendo que uma delas, dava para um telhado coberto de musgo com bebês samambaias nascendo em desordem, agarrando-se às telhas.


Tudo colocado nos quartos, rapidamente nos trocamos e então a chuva despencou. Raios, trovões, luz acabando, ficamos nas janelas, vestidos, enquanto o Vlad, do lado de fora, dava demonstrações de que estava prá lá de estressado, desesperado para pedalar.

Puxa, ainda bem que era de brincadeira, senão como explicar a entrada dele na casinha do cachorro? Rose, nossa anfritiã nos informou que a chuva logo iria embora, então... era só esperar e tirar fotos.


Quando amenizou saímos, com as capas de chuva e com as perguntas na cabeça.
O grupo inteiro queria saber para onde iríamos.... beiiiiinnnnn ... vamos para a estrada do Campo Grande, fazermos a volta e ´blá blá blá blá... pegamos o caminho contrário e fomos para Taquarussú.


A primeira vez que fiz esta trilha para a Vila, foi na companhia do Serginho do CAB, num dia cinzento como aquele.

A vez que mais me marcou tb eu estava com eles e mais um pessoal do canal cultura. Depois disso, fizemos tantas vezes, que eu descobri que sabia aquilo decór e salteado!


Prá quem nunca fez, imagine a situação! 3,5 de subida, não íngreme, porém constante, vira, dobra, vira e subida. Imagine o cheiro de areia molhada no chão, lembrando praias despovoadas, pedras arrendodadas de cores que iam de cinza a amarelo com branco, misturadas aos cascalhos que faziam os pneus derraparem a cada pedal.

Imagine passarem por folhas enormes, carregadas de água que ao tocarem nossa pele, parecem carinhos de tão macia que são!


Ainda tínhamos duas horas de luz do dia. Passamos por uma cancela, no final da subida (UFA!!) e continuamos a pedalar com aquela dificuldade com areia fazendo com que a bike tivesse uns 30 kgs. Tirei a capa. Estava ensopada mais do lado de dentro do que do lado de fora. De repente vimos, saindo do mato e correndo pela estrada, uma cobra toda preta, indo para o outro lado! Era pequena, no máximo uns 20 cms, entretanto isto sempre nos faz lembrar que ali somos nós os estranhos e a palavra chave é sempre muito respeito!


Chegamos ao pico que indica que lá embaixo está Taquarussú. Meu pneu grudou no chão e eu soltei o freio. Tirando o barulho normal do vento mas ainda ventava muito ainda! Era um vúúúúúúúú forte, desses que a tempestade depois de ter ido, esqueceu de levar embora!


A Miki levou a máquina e tudo era digno de ser registrado. Ainda bem que aquela hora em que fui aliviar um pouquinho de toda a água tomada, ela não estava presente! (rs)


O que vamos fazer agora? Sabe aquela do primo que disse que o marido da cunhada da irmã da amiga do vizinho tinha contado que tinha um caminho? Pois é, vamos procurar! Pedalamos até o palácio da alvorada e a noite desceu!


O Vlad achou melhor não irmos pela trilha indicada, primeiro por que a noite é horrível prá se descobrir que se perdeu, segundo porque nem bem entramos, os pés afundaram na lama fazendo aquele plóft que tão bem conhecemos.


Opção: voltar pelo mesmo lugar. Puxa, mas é chato. É, quando se faz ainda em dia claro e volta com o dia claro, porém vai fazer isso no escurão, vai...


As árvores fantasmagóricas faziam sombras e transformavam tudo, de repente, num breu de dar medo! Milhões de vagalumes ziguezagueavam pela mata, como luzinhas natalinas enfeitando o caminho.


Tudo era tão diferente que eu já não tinha certeza se estávamos ou não na mesma trilha. Ainda para piorar, o Vlad me pergunta se aquele orelhão estava no lado contrário quando nós íamos.


- Que orelhão, cara pálida?


Mas para alívio geral, o Luiz Romera lembrava-se perfeitamente e então, paramos para comer alguma coisa por que a barriga não fazia barulho, gritava!!


O Toyota abriu um saquinho de castanha de cajú, e daí foi banana que surgiu, barrinhas para fazer calar as barriguinhas famintas. Terminado o pick nick, pedal para que te quero!


Chegamos de novo à Taquarussú, agora escondida pelas sombras num silêncio funesto, e pela subida à frente, era essa mesma a previsão: funesta!


Cheguei quase até a metade mas estava duro. O sangue latejava nas temporas e eu não conseguia controlar a respiração. O suor caía tanto, que entrava nos olhos fazendo-os arder e não dava para tirar a mão do guidão. Daí não deu, né? A Miki desceu tb e o Toyota acompanhou as damas!


O Marcelo Leoni, o Luíz e o Vlad, seguiram, tranquilos até o final... bem.. eles são pró, o que se há de fazer....


Vencida a subida, chegou a preocupação. À noite, escuro, molhado, pedra solta, areia, cascalho e falta de luz = tombo


Começamos a descer e a luz do Vlad era a mais forte, dava prá enxergar. A minha.... bem, eu desliguei pois era pior a emenda que o soneto.

Logo, a luz do Toyota tb foi pro espaço e ficamos todos meio na loucura, meio na dependência do farol um do outro e todos no do Vlad. Onde a mata se abria, a gente ia na ignorância mesmo, ah... o pneu sabe achar o caminho! hehehehe e não íamos devagar... íamos na loucura com o coração batendo a mil!


Daí o Toyota parou e nosso farol tb. Imaginem se isso fez com que ele perdesse aquela aura de bom humor! A gente brincava o tempo todo com ele... ô honda, nagasaki, e dai o pessoal entrou também numas e diziam, Yokayama, Yamamura, e ele rindo, respondia a todos.

Eu ia um pouco na frente estanquei quando vi que não via nada. Acendi o farol e fiquei escutando um barulho tipo gruúúúúu´gruúúúuúú e entrei um pouco no mato, com a lanterninha só prá saber se dava prá ver alguma coisa. Como não dava e o som mudava de lugar, achei melhor respeitar e me comportar, mesmo por que, logo chegaram os varões e descemos para Paranapiacaba no que eu imaginava, sem acidentes, porém a MIKI havia caído, ralado a perna e a bike novinha e portanto esta foi a sua estréia!!


Como ela não é de fazer auê, resolvemos ir ao mirante. De lá vimos Cubatão, um pedaço de Santos, segundo os conhecedores (o que eu duvido hehehehe) e então eram 11 horas da noite. Voltamos à pousada para tomar banho e depois de muito stress, nós, as meninas saímos do banho faltando 5 mts para 2006... 3 para deixar as coisas no quarto 1 caminhando até a porta da frente e então, segundos passaram voando e chegou 2006!!

Foram abraços daqui, abraços de lá e desejos de um feliz inteiro 2006! Puxa, emocionante! Nada do que fora combinado havia sido cumprido, porém estávamos, os bikers, juntos, unidos por esta paixão avassaladora pela bike, num lugar ermo, antigo, tombado!

Ceamos no restaurante do Doel e sua simpatisíssima esposa Grace que nos recebeu de braços abertos, com direito à licor de Cambuci, cerveja, para alguns, vinho, para outros e assim, entre pernil com molho de maracujá e molho de abacaxi, ficamos conversando, escutando os fogos e quando percebemos passava das 2.30 da manhã. Fomos dormir.

O Toyota vai ficar na história por ser o homem que mais dorme rápido na face da terra! Enquanto isso, a luz não deixava nem eu nem a Miki dormirmos.

Pedimos ao Leoni que descobrisse como apagar a luz, enquanto isso, o Vlad, olhando prá cara da gente com ar de ... como póde??????? desceu do beliche, fechou a veneziana e tudo se resolveu.

Tivemos uma crise de risos! quando o Leoni chegou, disse que não encontrara o interruptor, mas fechara nossa janela por fora, daí a gente rolou MESMO de tanto rir! Ele fechara a janela de outro quarto, pensando que fosse o nosso! Depois disso, vamos fechar os olhilhos e dormir? Eu embarquei super rápido.

Segundo a Miki e o Vlad, alguém roncou mas ninguém sabe quem.... portanto vamos deixar assim mesmo.


Dia seguinte o Toyota e o Marcelo foram embora depois do café da manhã e nós quatro enfim, fomos para Campo Grande. De novo lembrei quando estava lá em Ouro Fino, Ribeirão Pires, e depois de andar por caminhos que vcs nem imaginam, chegamos à estrada de Campo Grande.

Agora, eu não estava sendo conduzida, eu conduzia, igual ao que está escrito no brasão da cidade de São Paulo!

Mais uma vez, embaixo de uma garoa fininha, pegamos as bikes e visitamos a igreja e a estrada de ferro chegando enfim à Campo Grande.

A paisagem bucólica e ao mesmo tempo selvagem, lembrava, pelo tamanho das plantas, algo do mundo antediluviano.

O sol, mesmo escondido, estava queimando a pele dos meninos que não haviam passado o protetor.

Mas como a experiência conta, eles haviam-no trazido e agora, no meio do mato, passavam bloqueador solar para depois não ficar todo assado! (rs)

Samambaias enormes, flores cujos nomes nem sei, brincos de princesa, mares de marias-sem-vergonha, amoras silvestres, hortências, orelhas de judeu, bem-te-vi, pica-paus, borboletas, tudo misturado numa riqueza sem igual.

Lírios silvestres, soja na beira de estrada de ferro, azaléias em flor, bicos de papagaios, as 200 fotos que tiramos, não corresponderão ao nosso entusiasmo nem à nossa emoção, porém darão pinceladas do que vivenciamos!


Entretanto era hora de voltar e não encontramos de novo o caminho que tanto queríamos. Bom. não deu certo, certo está! Ao invés de irmos pelo asfalto, fomos direto no caminho que leva à parte baixa da cidade.

Todos sabíamos que teria uma subida bombástica porém tinha para amenizar além da paisagem, o ziziar incansável das cigarras. Perfeito. O que eu queria era terminar a trilha e a Miki tb.

Decidimos que se não desse para escalar aquela "montanha", ah, então desceríamos e empurraríamos as bikes.


Fomos indo observando e aprendendo a observar através dos olhos atentos do Luiz Romera que entende pacas de botânica, todos os nuances que aquela terra rica nos oferece. Manacás nos foram apresentados, assim como uma quantidade incrível de orquídeas, bromélias, flores e mais flores!


Entre o barulho de água de inúmeros riachos, remansos solitários cantos de pássaros chegamos à subida. Estabeleci que não olharia para cima até chegar onde eu aguentasse, não importava onde.

Coloquei na marcha mais leve, respirei fundo enquanto via os meninos subirem com a leveza de uma garça (podem rir, mas é isso mesmo! ) nos deixando lá prá trás. A Miki parou para tirar mais uma foto e eu continuei. Olhei para o pneu, abaixei a cabeça e fui subindo.

Fez-se a curva e eu continuei. O ar parecia que ia me arrebentar por dentro, enquanto o meu corpo parecia ter se trasnformado em um coração de tão forte que ele batia. As têmporas mexiam sem que eu fizesse o mínimo esforço para isso, porém as pernas não doiam estavam lá, castigando o pedal, batendo ferozmente em cada elo da corrente para vencer mais um metro.

Passaram três carros por mim e sequer levantei a cabeça para olhar. Me concentrei mais e mais, me imaginando no fim, quando então o ar entraria sem doer, e eu poderia soltar o maxilar, que sem perceber, eu apertava até dizer chega. Mais uma curva e o suor já banhava a testa, caindo nos olhos de novo.

Balancei a cabeça feito cachorro depois de tomar banho. - Só mais um pouco, pensei, está logo ali! Mais um pouco! A respiração veio lenta e profunda. Isso significava que estava mais amena a subida.

E então eu escutei: o Vlad e o Luíz, falando alto, dando vivas e dizendo: - força! Vem!! Cheguei até eles e logo depois, minha companheira de trilha, chegou da mesma maneira, pedalando!

Os meninos deram vivas! O Luiz nos contou que comentara com o Vlad que agora teriam que ter paciência e esperar,pois a gente ia demorar inclusive, para empurrar a bike e ficou surpreso e comovido de nos ver ali, a chegar pedalando.

Ao pararmos, veio a chuva de suor e as batidas do coração ficaram rapidamente mais lentas. Havíamos conseguido e este foi o melhor presente que Deus poderia ter nos dado!

Eufóricos descemos até avistarmos a bela Paranapiacaba que nos olhava, soberba, desde a casa mais humilde, até aquela no lugar mais alto lugar da Vila.


Depois do banho, bikes dentro do carro, almoçamos no nosso mais recente amigo, Doel, e depois de muitos abraços, pegamos a estrada de volta para São Paulo, com além da alma lavada, todinha cheia de lembranças deste passeio impregnado de magia e história tão belo e tão próximo de nossa cidade.


Bike beijos a todos


Feliz 2006 com muita bike no coração


E mais uma vez, obrigada Rudolf, pela ajuda e indicação!


Ira!

(veja aqui as fotos desse passeio)

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